sábado, 22 de março de 2014

Vocacional – Carmelitas Eremitas de Atibaia

Beijo a Tua paixão que me liberta das minhas paixões
Beijo a Tua cruz que condena e esmaga o pecado em mim
Beijo Teus cravos, Tuas mãos que apagam o castigo do mal
Beijo Tua ferida que curou a ferida do meu coração
Eu Te beijo Senhor e a Tua paixão é o Meu Tudo!
És Meu Tudo, Jesus
Amado de minha alma
Oh, Belíssimo Esposo!
Mais belo que todos os homens!
Santo, santo és Tu!
Belíssimo Esposo!
Esconde-me em Teu lado aberto!
Em Tua chaga de Amor... de Amor!
Beijo a lança que abriu a fonte do Amor imortal, a
fonte do Amor sem fim
Que pagou o que eu não poderia pagar
Beijo o Teu lado aberto jorrando rios de vida e de
paz
Fazendo brotar em mim
Um canto novo, um hino esponsal
Beijo Tuas vestes que esconderam minhas misérias
Vergonha não há
Me adornas com Amor!

Beijo os lençóis que envolveram o Teu corpo ferido de
Amor
E cobriram meu coração
Revestiram-me de realeza
Beijo o Teu Santo Sepulcro
Testemunha da Ressurreição
Quero ressuscitar também
E encerrar-me dentro de Ti
Quero em Ti mergulhar
E então renascer na Tua chaga criadora
Descansar a minh'alma em Teu coração!



quarta-feira, 19 de março de 2014

Sobre a fraqueza perante o mistério – cartas – 1


Natanael a Lotar


Sem dúvida, estão todos preocupados por não lhes ter escrito durante tanto

tempo. Mamãe deve estar zangada, e Clara pode estar pensando que aqui

levo uma boa vida, esquecendo por completo sua querida imagem angelical,

tão profundamente gravada em meu coração e em minha mente. Mas não e

assim; todos os dias e a toda hora penso em vocês todos, e em doces

devaneios aparece a minha querida Clarinha sorrindo-me com seus olhos

tão graciosos, como de costume, quando estava junto a vocês. Ah, mas

como poderia escrever-lhes com o estado de espírito tão dilacerado, que

vem me confundindo todos os pensamentos! Algo de terrível aconteceu em

minha vida! Sombrios pressentimentos de um cruel e ameaçador destino

estendem-se sobre mim quais sombras de nuvens negras, impenetráveis a

qualquer benevolente raio de sol. Agora devo dizer-lhe o que me aconteceu.

Reconheço que é necessário fazê-lo, mas, só em pensar nisso, escapa-me um

riso de louco. Ah, meu caríssimo Lotar, como farei para que de alguma

forma você sinta que o que me sucedeu há alguns dias perturbou minha vida

de maneira tão terrível? Se ao menos você estivesse aqui, poderia ver com

seus próprios olhos; mas, tenho certeza, certamente vai me considerar um

supersticioso

visionário. Em suma, o terrível acontecimento em questão, de cuja fatal

influência em vão esforço-me por evitar, consiste simplesmente em que, há

alguns dias, exatamente no dia 30 de outubro, ao meio-dia, um vendedor de

barômetros entrou em meu quarto e me ofereceu seus instrumentos. Não

comprei nada e ameacei jogá-lo escada abaixo, mas ele então saiu

voluntariamente.

Você pode imaginar que somente circunstâncias bem particulares e

marcantes de minha existência são capazes de explicar o significado desse

incidente, e que a pessoa desse funesto caixeiro-viajante possa ter um efeito

pernicioso sobre mim. De fato, todo sangue-frio me é necessário para, com

calma e paciência, contar-lhe detalhes de minha infância, que permitirão a

sua mente vivaz compreender tudo de maneira límpida e transparente.

Agora, quando começo, tenho a impressão de ouvir o seu riso e as palavras

de Clara: "Tudo isso não passa de criancice!" Riam, por favor, riam muito

de mim! Peço-lhes encarecidamente! Mas Deus do céu! Meus cabelos

arrepiam-se, e é como se eu lhes implorasse, loucamente desesperado, para

que riam de mim, como Franz Moor fez a Daniel¹. Vamos aos fatos!

À exceção da hora do almoço, eu e meu irmão pouco víamos nosso pai

durante o dia. Ele talvez estivesse muito ocupado com os seus negócios.

Depois do jantar, que segundo o velho costume era servido às sete horas,

íamos todos, mamãe conosco, ao gabinete de papai e nos sentávamos em

torno de uma mesa redonda. Papai fumava seu tabaco e bebia um grande

copo de cerveja. Muitas vezes narrava-nos histórias maravilhosas, e

aquelas narrativas entusiasmavam-no tanto, que o seu cachimbo sempre se

apagava. Cabia a mim, segurando um papel em chamas, acendê-lo

novamente, o que consistia no meu principal divertimento. Freqüentemente

também, ele nos dava livros ilustrados, sentava-se mudo e inerte em sua

poltrona e expelia espessas nuvens de fumaça, de forma que todos nós

ficávamos como que envoltos na névoa. Em noites como essas mamãe ficava

muito triste e, mal soavam as nove horas, falava-nos: "E agora, crianças,

para a cama, para a cama! O Homem da Areia está chegando, já posso

ouvir seus passos." De fato, todas as vezes eu ouvia passadas pesadas e

lentas subindo a escada; devia ser o Homem da Areia. Certa vez, aquele

andar abafado causou-me uma impressão

particularmente aterradora. Perguntei a mamãe, enquanto ela nos levava:

"Mamãe! Quem é mesmo o malvado Homem da Areia que sempre nos separa

de papai? Como é ele?" "Não existe nenhum Homem da Areia, meu filho",

respondeu minha mãe. "Quando digo que o Homem da Areia está chegando,

isso quer dizer apenas que vocês estão com sono e não conseguem manter os

olhos abertos, como se alguém tivesse jogado areia neles." A resposta de

mamãe não me satisfez; em meu espírito infantil desenvolveu-se claramente a

idéia de que mamãe só negava a existência do Homem da Areia para que não

ficássemos amedrontados, pois eu ouvia quando ele subia pela escada.

Curioso em saber mais sobre aquele Homem da Areia e sua relação com

crianças como nós, finalmente perguntei à velha criada que cuidava de minha

irmã sobre que tipo de homem era aquele, o Homem da Areia.

"Natanaelzinho", respondeu ela, "você então não sabe? É um homem

malvado que aparece para as crianças quando elas não querem ir dormir e

joga-lhes punhados de areia nos olhos, de forma que estes saltam do rosto

sangrando; depois ele os mergulha num saco e carrega-os para a Lua, para

alimentar os seus rebentos. Eles ficam lá, empoleirados em seu ninho e, com

o bico recurvado como o das corujas, bicam os olhos das criancinhas

travessas ". Aterrorizado, a partir de então considerei o Homem da Areia sob

um aspecto noturno. A noite, bastava ouvir o ruído de passos na escada para

tremer de medo e horror Mamãe só conseguia arrancar de mim o grito entre

lágrimas: "O Homem da Areia! O Homem da Areia! ", depois eu corria para

o quarto, e durante a noite toda atormentava-me a temível imagem do

Homem da Areia.

Eu já estava crescido o suficiente para compreender que aquela história

contada pela ama-seca sobre o Homem da Areia e o seu ninho com crianças

na Lua realmente não podia estar lá muito correta; todavia, o Homem da

Areia continuava sendo para mim um terrível fantasma, e o terror me

arrebatava quando o ouvia não apenas subir as escadas, como também abrir

e entrar violentamente no gabinete de meu pai. As vezes passava muito tempo

sem aparecer; depois vinha muitas vezes consecutivas. Isso durou anos, e não

pude me acostumar à sinistra assombração — a figura aterrorizante do

Homem da Areia não saía da minha cabeça. Suas relações com meu pai

passaram a ocupar cada vez mais a minha imaginação, e um medo

insuperável impedia-me de interrogá-lo sobre o assunto, mas, com os anos,

sedimentou-se e germinou em mim a vontade de investigar o mistério, de ver

o fabuloso

Homem da Areia. Ele me conduzira para o caminho do maravilhoso, do

romanesco, que com muita facilidade instala-se na alma infantil. Nada me

agradava mais do que ouvir ou ler aterrorizantes histórias de duendes,

bruxas e anões. Mas em primeiro lugar estava sempre o Homem da Areia,

que eu desenhava com giz ou carvão, da forma mais estranha e abominável,

em mesas, armários e paredes.

Quando fiz dez anos, minha mãe mudou-me do quarto de crianças para um

pequeno aposento que dava para um corredor não muito distante do gabinete

de papai. Mal batiam as nove horas e ouvíamos o desconhecido entrar,

éramos obrigados a nos retirar rapidamente. Em meu quartinho, percebia

quando ele entrava no gabinete de papai, e logo em seguida tinha a

impressão de que se espalhava pela casa um vapor suave e de raro odor Com

minha curiosidade, cada vez mais ardia o desejo de, com coragem e

determinação, travar conhecimento com o Homem da Areia. Muitas vezes,

quando mamãe já havia passado, eu saía rapidamente do quartinho para o

corredor, mas nada podia escutar, pois o Homem da Areia sempre havia

ultrapassado a porta, quando eu chegava ao local de onde ele poderia ser

visto. Levado por um irresistível impulso, decidi esconder-me no gabinete de

papai e esperar o Homem da Areia.

Certa noite, pelo silêncio de papai, pela tristeza de mamãe, percebi que o

Homem da Areia viria. Dei como pretexto um grande cansaço, deixei a sala

antes das nove e me escondi bem junto à porta do gabinete, num cantinho. A

porta da casa rangeu, e passos lentos, pesados e ruidosos atravessaram o

corredor em direção à escada. Mamãe passou por mim apressadamente, com

meus irmãos. Suavemente, bem suavemente, abri a porta do aposento de meu

pai. Corno de costume, ele estava sentado com as costas voltadas para a

porta; calado e imóvel, não percebeu minha presença, e rapidamente entrei e

me escondi atrás da cortina que cobria um armário aberto ao lado da porta,

onde estavam penduradas roupas de meu pai.

Os passos aproximaram-se mais e mais. Do lado de fora, ouviam-se

estranhas tosses, pigarros e um enigmático murmúrio. Meu coração pulsava

forte, de medo e ansiedade. Perto, bem perto da porta, um passo mais nítido,

um golpe violento no trinco, e a porta se abre com violência! Forçando-me a

tomar coragem, ponho cuidadosamente a cabeça para fora. O Homem da

Areia está no meio do gabinete e diante de meu pai, o brilho claro das velas

ilumina o seu rosto! O Homem da Areia, o

terrível Homem da Areia, é o velho advogado Coppelius, que às vezes almoça

em nossa casa!

Porém, a mais aterrorizante figura não me teria provocado tanto horror

quanto aquele Coppelius. Imagine um homem grande, de ombros largos, com

uma cabeça disforme e grande, rosto amarelecido, sobrancelhas fartas e

grisalhas, sob as quais faiscava um par de olhos de gato, esverdeados e

penetrantes, e um nariz gigantesco sobre o lábio superior. A bocarra

retorcia-se com freqüência num riso malicioso, tornando visíveis manchas

vermelhas nas bochechas. Um chiado estranho atravessava seus dentes

cerrados.

Coppelius sempre aparecia num sobretudo cinzento de corte antigo, com o

colete e a calça semelhantes, mas de meias pretas e sapatos com pequenas

fivelas enfeitadas com pedraria. A pequena peruca mal lhe cobria o cocuruto,

dois cachos postiços estavam colados acima das grandes e vermelhas

orelhas, e um grande coque afastava-se da nuca, de forma que se via a fivela

prateada que fechava o colarinho pregueado. A figura no conjunto era

medonha e abjeta; mas para nós, crianças, o que nos chocava mais eram suas

grandes mãos, ossudas e peludas, tanto que evitávamos pegar no que

tocavam. Ele notara essa repugnância, e então se divertia em bolinar com as

mãos, sob esse ou aquele pretexto, um pedaço de bolo ou uma fruta que a boa

mamãe deixara furtivamente em nosso prato. Nós, com lágrimas nos olhos,

não conseguíamos mais desfrutar; por nojo e aversão, as gulodices antes

destinadas ao nosso prazer. A mesma coisa ele fazia em dias de festa, quando

papai nos servia um pequeno cálice de vinho doce. Rapidamente, ele passava

a mão em sua borda ou levava o cálice aos lábios azulados, rindo

diabolicamente quando percebia que nos era permitido manifestar nossa

irritação baixinho, aos soluços. Tinha por hábito nos chamar de "pequenas

bestas". Não podíamos abrir a boca em sua presença e amaldiçoávamos

aquele homem feio e hostil que conseguia estragar propositadamente a menor

de nossas alegrias. Mamãe, como nós, parecia odiar o repugnante Coppelius;

pois, quando ele aparecia, sua jovialidade, seu jeito de ser alegre e

despreocupado transformava-se numa gravidade triste e sombria. Papai

comportava-se como se fosse ele um ser superior, com cujos maus costumes

devia-se ter paciência e conservar bom humor Bastava uma sutil sugestão

sua, e preparavam-se seus pratos prediletos, que eram acompanhados de

vinhos raros, abertos em sua homenagem.

Quando vi o tal Coppelius, a verdade se me revelou terrível e ameaçadora:

ninguém senão ele poderia ser o Homem da Areia! Mas o Homem da Areia

não era mais para mim aquele espantalho das histórias da carochinha, que

vai arrancar os olhos das criancinhas para servir de alimento a sua ninhada

de corujas na Lua. Não! Era um monstro fantasmagórico que carregava

consigo, aonde fosse, aflição, miséria e ruína eternas.

Eu estava enfeitiçado. Frente ao perigo de ser descoberto e, como eu

pensava, duramente castigado, continuei ali, ouvindo tudo com a cabeça para

fora da cortina. Meu pai recebeu Coppelius cerimoniosamente.

"Ao trabalho", exclamou este, com uma voz rouca e rascante, desembaraçando-

se do sobretudo. Calma e sombriamente, papai tirou seu roupão, e

ambos vestiram longas túnicas negras. Não percebi de onde as haviam tirado.

Meu pai abriu as portas de um armário, e então constatei que aquilo que eu

sempre pensara ser um armário era na verdade um nicho profundo, onde

estava um pequeno fogão. Coppelius aproximou-se, e uma chama azul ardeu.

Havia ali todo tipo de aparelhos estranhos. Ah. Deus! Ao inclinar-se em

direção ao fogo, meu pai parecia outro. Uma dor cruel e convulsiva parecia

metamorfosear seus traços na mais horrenda e repugnante imagem diabólica.

Ele se assemelhava a Coppelius! Este brandia tenazes incandescentes e com

elas retirava da fumaça densa massas claras e cintilantes, que depois

martelava com violência.

Tive a sensação de que rostos humanos tornaram-se visíveis a sua volta,

mas não tinham olhos — ao invés deles, profundas e horrendas cavidades

negras. "Que venham os olhos, que venham os olhos!", gritou Coppelius com

uma voz surda e ameaçadora. Completamente aterrado, soltei um berro e,

saindo de meu esconderijo, caí no chão. "Pequena besta! Pequena bestar,

rosnou ele, rangendo os dentes. Subitamente me ergueu e jogou-me sobre o

fogão, de maneira que as chamas começaram a chamuscar meu cabelo:

"Agora temos olhos — olhos —, um lindo par de olhos infantis." Foi o que

murmurou Coppelius, pegando com as mãos um punhado de brasas

incandescentes para atirar em meus olhos, enquanto meu pai implorava,

erguendo as mãos e gritando: "Mestre! Mestre! Deixe os olhos de meu

Natanael — deixe-os com ele!" Coppelius gargalhou estridentemente: "Que o

rapazinho conserve os seus olhos para choramingar sua sina pelo mundo!

Mas agora vamos observar atentamente o mecanismo das mãos e dos pés."

Com isso,

pegou-me com tanta violência que minhas articulações estalaram, girando

minhas mãos e meus pés e recolocando-os ora aqui, ora acolá. "Não ficam

bem em lugar nenhum! E melhor deixar como estavam. O velho lá de cima

entendia bem do riscado!" Assim Coppelius silvava e ciciava; mas tudo a

minha volta tornou-se negro, escuro, uma súbita convulsão percorreu meus

nervos e ossos — eu não sentia mais nada. Um sopro suave e morno passou

pelo meu rosto e despertei como de um sono de morte. Mamãe estava

inclinada sobre mim. "O Homem da Areia ainda está aí?", balbuciei. "Não,

filhinho, já foi há muito, muito tempo, e não lhe fará mal!" Assim falou

mamãe, beijando e acariciando o filho predileto, já restabelecido.

Por que fatigar-lhe tanto, meu caro Lotar, contando-lhe todos esses

detalhes, se tanta coisa importante ainda tenho a dizer? Em suma, fui

descoberto enquanto espiava e cruelmente maltratado por Coppelius. Medo e

susto causaram-me uma febre escaldante, e fiquei doente por várias semanas.

"O Homem da Areia ainda está aí?" Estas foram as minhas primeiras

palavras concatenadas e o sinal de minha recuperação, de minha salvação.

Devo contar-lhe ainda o mais terrível momento de meus anos de infância;

então ficará convencido de que não é culpa de meus olhos se agora tudo me

parece descolorido, mas que realmente uma fatalidade cobriu minha vida

com um denso véu de nuvens, que só com minha morte, talvez, se dissipará.

Coppelius não apareceu mais. Dizia-se que deixara a cidade.

Mais ou menos um ano depois, estávamos sentados à noite em torno da

mesa redonda, segundo o velho e imutável costume. Papai estava muito

alegre e contava histórias divertidas das viagens que fizera na juventude. Foi

quando de repente ouvimos, às nove horas, os gonzos da porta soar, e passos

lentos e pesados como ferro avançaram em direção à escada. "É Coppelius",

disse minha mãe, empalidecendo. "Sim, é Coppelius", repetiu meu pai com

voz frágil e hesitante. Lágrimas rolaram dos olhos de minha mãe. "Meu

amigo, meu amigo!", exclamou ela, "precisa ser assim?" "Pela última vez!",

ele respondeu, "pela última vez ele virá aqui, eu juro. Agora vá, vá com as

crianças! Vão para a cama! Boa noite!"

Eu estava como que petrificado, minha respiração vacilava! Vendome

imóvel, mamãe pegou-me pelo braço. "Venha. Natanael, venha!" Deixei-me

levar e entrei no meu quarto. "Acalme-se, acalme-se; vou pô-lo na cama.

Durma, durma", pediu minha mãe. Porém, torturado pela

angústia e presa de profunda inquietação, não consegui fechar os olhos. O

odioso e repugnante Coppelius surgia a minha frente com olhos faiscantes e

sorria hipocritamente. Em vão, tentei livrar-me de sua imagem. Já deveria

ser meia-noite quando se ouviu um temível barulho, como se uma artilharia

houvesse começado a disparar Toda a casa estremeceu, perto da porta de

meu quarto passaram ruídos e rumores e então a porta da frente bateu

ruidosamente. "É Coppelius!", gritei assustado, e saltei da cama. Então ouvi

um lamento dilacerante e inconsolável e precipitei-me para o gabinete de

meu pai; a porta estava aberta, um vapor sufocante se fez sentir, enquanto a

criada gritava: "Ah, patrão, ah, patrão!" Diante do fogão fumegante, no

chão, encontrava-se meu pai, morto, com o rosto terrivelmente desfigurado e

queimado, e ao seu redor choravam e gemiam minhas irmãs; mamãe a seu

lado, desmaiada! "Coppelius, maldito Satã, você matou meu pai! ", foi assim

que gritei, perdendo os sentidos. Dois dias depois, quando foi colocado no

caixão, seus traços voltaram a ser suaves e tranqüilos, como em vida. O que

foi um consolo, pois imaginara em meu espírito que o seu pacto com o

diabólico Coppelius poderia condená-lo à danação eterna.

A explosão havia acordado os vizinhos. O acontecimento tornou-se público

e chegou às autoridades, que queriam intimar Coppelius como responsável

pelo fato. Este, porém, havia desaparecido sem deixar pistas.

Se lhe disser, caro amigo, que aquele vendedor de barômetros era

justamente o maldito Coppelius, você compreenderá por que interpreto sua

hostil aparição como presságio de uma terrível desgraça. Usava outras

roupas, mas a figura de Coppelius e os traços do rosto estão de tal modo

impregnados em minha memória que não pude deixar de reconhecê-lo. Além

disso, ele nem ao menos trocou de nome. Faz-se passar agora, como ouvi

dizer, por um mecânico piemontês e se denomina Giuseppe Coppola.

Estou decidido a enfrentá-lo e vingar a morte de meu pai, aconteça o que

acontecer.

Não conte nada a mamãe sobre a aparição desse monstro cruel. Dê

lembranças a minha encantadora Clara; escreverei a ela com mais calma.

Saudações etc. etc.

Sobre a felicidade e/ou o " fim" último do homem: Crítica à filosofia oriental

Nas ações humanas, tudo o que vai contra a razão é vicioso.
Tomás de Aquino


Desde Agostinho as especulações metafísicas, filosóficas e teológicas voltaram-se para o problema da existência do mal e da finalidade da existência humana. Durante a juventude, conforme ele mesmo relata em "Confissões", Agostinho foi profundamente influenciado pelo pensamento dos Maniqueus, concluindo conforme os preceitos dessa seita, que a matéria é má.

"Os Maniqueus foram fundados no século III pelo profeta persa Mani, o qual acreditava que lhe fora concedida revelação direta da natureza de Deus e do Universo. Seu ensinamento exerceu tanta atração em seus contemporâneos em muitas regiões do Império Romano e para além deste, circunscreveu tão convincentemente os fios da tradição gnóstica existente, e tão vasta foi a influência, que pelo século VIII abrangia até a China".

Ai de ti helenismo, ai de ti filosofia oriental! Quantos se perdem por seus desatinos...